SODRÉ, Paulo Roberto (Universidade Federal do Espírito Santo) Os homens entre si: homossexualidade masculina na lírica galego-portuguesa Área: Letras PDF Imprimir E-mail
Sáb, 04 de Fevereiro de 2012 22:00
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Objetivamos investigar a representação dos homossexuais ou “sodomitas” na lírica trovadoresca peninsular, nomeadamente nas cantigas satíricas de Pero da Ponte, trovador da fase régia do Trovadorismo galego-português (1240-1300 [OLIVEIRA, 2001, p. 148 et seq.]), cujos textos denunciam os “fodidos e seus maridos” seja na pele de Fernan Diaz Estaturão (na cantiga “De [Don] Fernan Diaz Estaturão”), seja na de Tisso Pérez (na cantiga “Don Tisso Pérez! Queria oj’eu”).

Uma investigação com tal propósito analítico-interpretativo implica na interdisciplinaridade, na medida em que abarca, ao menos, quatro áreas de conhecimento: Literatura, Filologia Românica, Jurisprudência e História.

Um dos óbices mais sérios ao estudo crítico-literário da lírica galego-portuguesa é a instabilidade textual dos manuscritos, dos cancioneiros em que se recolheram as cantigas medievais. Isso exige que o crítico se ampare tanto na observação desses manuscritos, dos fac-símiles, como em suas edições críticas mais autorizadas. Assim sendo, e em se tratando da sátira peninsular do século XIII e XIV, lançaremos mão das duas edições desse corpus, a de Manoel Rodrigues Lapa e de Graça Videira Lopes, que pretende corrigi-la e ampliá-la, além da edição crítica de Saverio Panunzio das cantigas de Pero da Ponte.

Estabelecidas as lições das cantigas que compõem o corpus deste Projeto, seguiremos, no que concerne à crítica literária dedicada à lírica galego-portuguesa, as observações de Jesús Martínez Montoya, que considera retórico, e não moralista ou realista, o discurso das cantigas satíricas – dadas as coerções do retraer –, e de Rafael M. Mérida, que interpreta as cantigas sobre os homossexuais tendo em vista o estudo dos textos jurídicos coevos, em especial, Las siete partidas, em que se prescrevem as penas contra essa prática sexual.

Corroborando essas considerações de ordem filológica, literária e jurídica, lançaremos mão dos estudos historiográficos de Jacques Le Goff, Jean-Claude Schmitt e Hanna Zaremska, para a discussão sobre o conceito de marginalidade na Idade Média, e, em particular, de homossexualidade masculina.

À luz dessas considerações interdisciplinares, propõe-se o estudo da linguagem satírica, dos equívocos e da linguagem direta e obscena que caracterizam o discurso das cantigas escarninhas peninsulares de maneira a se observarem as alusões, as brincadeiras e as circunstâncias que propiciaram as cantigas sobre os homens que amam entre si.