FONSECA, Pedro Carlos Louzada (Universidade Federal de Goiás) Antifeminismo e defesa da mulher na Idade Média: textos fundadores. Área: Estudos Literários PDF Imprimir E-mail
Sáb, 04 de Fevereiro de 2012 22:05
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“Antifeminismo e defesa da mulher na Idade Média: textos fundadores” projeta constituir-se num estudo dos textos misóginos e de textos pró-mulher mais representativos no pensamento medieval europeu, tanto no campo religioso e filosófico como literário. O levantamento seletivo de tais textos, que depuseram contra e a favor da mulher, deverá fornecer elementos para um estudo teórico e crítico acerca dos fatores condicionantes culturais e ideológicos que influenciaram na formação dos juízos de valor sobre a mulher na tradição medieval.  A identificação desses fatores condicionantes e desses juízos de valor sobre a mulher dará o mapa mental, histórico, imaginário e figurativo da misoginia medieval e de algumas iniciativas, ocorridas na Idade Média, para a reconsideração desse procedimento discriminatório.
Com base em resultados de estudos já realizados em vários campos do conhecimento acerca da cultura ocidental, ter-se-á como pressuposto investigativo, o fato de que esse antifeminismo medieval é de raízes fincadas na própria antropologia cultural, histórica e social do patriarcalismo na sua concepção ocidental, quer de ascendência pagã ou judaico-cristã.
Um levantamento preliminar acerca do corpus – autores e obras (originais e traduzidas) – do estudo consistirá primeiramente de uma relação de autores e de obras da difamação antifeminista, a começar pelas raízes desse antifeminismo tradicional, as quais poderão ser encontradas em Ovídio (43 a.C.-18 d.C.), com a A arte de amar e Amores, e em Juvenal (princípio do século II), com a sua conhecida Sátira IV. Ainda no âmbito das raízes desse antifeminismo antigo, devem ser citados os seguintes livros da Bíblia: Genesis, Reis, Provérbios, Eclesiastes, Eclesiásticos e a Primeira Epístola de São Paulo a Timóteo.  Os estudos de fisiologia e de etimologia antigos tiveram enorme influência enquanto formadores das raízes de tal antifeminismo, devendo, nesse caso, serem aqui citados Aristóteles (384-322 a.C.), com De generatione animalium  [Sobre a geração dos animais]; Galeno  (131-201), com De usu partium (fim do século II) [Sobre a utilidade das partes do corpo] e Santo Isidoro de Sevilha (c.570-636), com Etymologiae [Etimologias].
Ressoando a polêmica questão da ‘matéria’ (realidade feminina) e ‘forma’ (realidade masculina), em escritos posteriores, encontram-se Santo Anselmo (1033-1109), com Monologium; São Tomás de Aquino (1225-74), com Summa Theologiae [Suma teológica]; Guido Delle Colonne (séculos XIII-XIV), com Historia destructionis Troiae (1287) [História da destruição de Tróia].
Dentre os Padres da Igreja, que fizeram coro a essa tradição antifeminista, levada agora em consideração religiosa pela chamada literatura patrística, encontram-se os nomes de Tertuliano (c.160-c.225), com De cultu feminarum [Sobre aparência das mulheres]; de São João Crisóstomo (c.347-407), com a Homilia VI (sobre a Epístola de São Paulo a Timóteo); de Santo Ambrósio (c.339-97), com De viduis (c.378) [Sobre a viúva], De Paradiso (c.375) [Sobre o Paraíso] e Expositio Evangelii Secundum Lucam (388-9) [Comentário do Evangelho segundo Lucas]; de São Jerônimo (c.342-420), com Adversus Jovinianum (c.393) [Contra Jovinianus], a Carta 22, a Eustochium (384) e a Carta 77, a Oceanus (399); de Santo Agostinho (354-430), com Confessiones (398) [Confissões] e De Genesi ad litteram (401-16) [O sentido literal do Gênesis] e De civitate Dei (412-27) [A cidade de Deus].
O legado antifeminista desses Padres da Igreja contou com os nomes de Graciano (século XII); de Heloísa (1101-1164) e Abelardo (1079-1142), com A História da sua desgraça e a Carta 3, de Heloísa a Abelardo; de São Tomás de Aquino (1225-1274), com Summa Theologiae (1266-1272) [Suma teológica]; de Gottfried von Strassburg, comTristão (c.1210); e do anônimo autor de Ancrene Riwle (século XIII) [Regra para anacoretas].
O antifeminismo medieval continuou a sua tradição satirizante da imagem feminina, em latim, com A vida de Secundus (fim do século XII), de autoria anônima; com De meretrice [A meretriz], in Líber decem capitulorum [Livro de dez capítulos], de Marbod de Rennes (c.1035-1123); com A carta de Valerius a Ruffinus, contra o casamento (c.1180), de Walter Map (1140-c.1209); com De amore (c.1185) [Sobre o amor], de Andreas Capellanus  (séculos XII-XIII); com De coniuge non ducenda (c.1222-50) [Contra o casamento], de autoria anônima.
Durante o período medieval, surgiu também uma grande quantidade de histórias antifeministas, das quais, as seguintes devem ser destacadas: La veuve (século XII) [A viúva], de Gautier Le Leu; e o Sermão 66, in Sermones vulgares [Sermões vulgares]de Jacques de Vitry (c.1170-1240).
Ainda o antifeminismo medieval se manifestou por meio de adaptações vernaculares na Idade Média tardia, como as de Jean de Meun (c.1240-c.1305), com Le roman de la rose  [O romance da rosa]; de Giovanni Boccaccio (1313-1375), com Il Corbaccio (c.1355) [O Corbaccio]; de Jehan Le Fèvre (séculos XIII-XIV), com Les Lamentationes de Matheolus (c.1371-2) [As lamentações de Matheolus]; de Geoffrey Chaucer (c.1343-1400), com The Wife of Bath (c.1390-5) [A esposa de Bath].
Acorrendo em defesa da mulher e em resposta ao antifeminismo medieval, vários autores (alguns deles anônimos) e obras se revelaram. Dentre esses autores e obras, o seguinte pode ser citado: The Thrush and the Nightingale (fim do século III), de autoria anônima; Marbod de Rennes (c.1035-1123), com De matrona [A boa mulher], in Líber decem capitulorum [Livro de dez capítulos]; Abelardo (1079-1142), com a Carta 6, in De auctoritate vel dignitate ordinis sanctimonialium [Sobre a origem das freiras]; Albertano de Brescia (c.1193-?1260), com Líber consolationis et consilii (1249) [O livro de consolação e conselho]; a Resposta ao Bestiário do Amor (c.1250), de Richard de Fournival; The Southern Passion (fim do século XIII, antes de 1290) [A paixão sulina], de autoria anônima; John Gower (1325?-1408), com Confessio amantis (1386-90) [Confissão de um amante]; o Registrum do Bispo Trefnant, de autoria anônima, referente ao julgamento (1391) das teses de Walter Brut acerca de direitos públicos das mulheres; Dives and Pauper (1405-10), de autoria anônima; Merelaus imperator [Merelaus, o imperador], in Gesta romanorum [Histórias dos romanos], de autoria anônima; e Christine de Pizan (1365-c.1430), com L’epistre au dieu d’amour (1399) [Carta ao deus do amor], La querelle de la rose (c.1400-c.1403) [A querela da rosa] e Le livre de la cité des dames (1405- ) [O livro da cidade das damas]. 
No bojo da intenção central do estudo situa-se a proposta de um levantamento de significativos pronunciamentos de difamação e de defesa da mulher em obras e em autores fundamentais da Idade Média (séculos VII-XV), com a finalidade de atingir os seguintes objetivos teóricos e críticos acerca da misoginia e do peculiar pensamento pró-mulher que no período medieval: (1) conferir que a misoginia medieval não tem o seu começo na própria Idade Média, mas corresponde a um re-tratamento do tema, cujas raízes remontam não só à cultura e à sociedade (filosófica, literária e popular) greco-latina antiga, mas também à tradição bíblica e cultural judaico-cristã; (2) investigar os modos da influência e da disseminação dessa tradição antifeminista em textos e obras misóginos da Idade Média, os quais, reelaborando e construindo uma retórica própria para o tratamento do tema, assim o fizeram com finalidades ideológicas e de ordem política; (3) investigar os fatores culturais, históricos, sociais, filosóficos e religiosos que serviram para tornar peculiar a misoginia tal qual tratada e caracterizada no período medieval; (4) fazer um exame teórico e crítico das fontes citacionais e discursivas a serviço da construção de textos misóginos filosóficos, religiosos e literários medievais; (5) propor a possibilidade de um esboço de modelo, com príncipios e modos de estruturação, dos textos misóginos medievais; (6) investigar as peculiaridades de procedimento retórico dos textos que, em resposta ao antifeminismo, defenderam a mulher, bem como a viabilidade da composição de linguagem de um discurso pró-mulher na Idade Média.
A metodologia a ser utilizada para a execução do presente estudo consistirá, em termos de teoria, dos recursos e das estratégias do método comparativista, tal qual empregado pela disciplina da literatura comparada. Com a finalidade de se examinar, comentar, interpretar e criticar os diversos pronunciamentos textuais acerca da difamação e da defesa da mulher no período medieval, os textos serão lidos intertextualmente, uma vez que, a misoginia medieval se caracterizou, essencialmente, pelo processo da repetição de modelos e da citacionabilidade. Assim, por exemplo, São Paulo pode ser lido em São Jerônimo que, por sua vez, funciona como hipotexo para Andreas Capellanus, e assim por diante. Em termos operacionais, os textos serão lidos e, deles, selecionadas as partes que forem julgadas mais expressivas no tratamento do tema da difamação e da defesa da mulher medieval. Esses textos serão alinhados em ordem cronológica, indicando-se em notas as suas recorrências intertextuais. Isso para que se possa investigar acerca da possível existência de modelos, pelos quais se pautaram o tratamento do tema. Como etapa final desse procedimento, também será investigada a possibilidade de se construir uma teoria e prática crítica, pelo menos da misoginia medieval, uma vez que a sua contraparte, os escassos depoimentos em favor da mulher na Idade Média, não foram suficientemente bastantes para se constituírem em termos de realidade teórica ou mesmo de crítica prática.  Para os levantamentos dos referidos textos, serão procurados, primeiramente, os textos traduzidos.  Quando for o caso de não se poder contar com isso, os textos traduzidos para outras línguas serão considerados, sempre cotejados com as suas edições na língua original.  Nesse último caso, tais textos serão traduzidos, cuidando-se sempre dos expedientes legais que normalmente envolvem tal expediente.
O estudo “Antifeminismo e defesa da mulher na Idade Média: textos fundadores”, como o próprio título evidencia, consistirá num estudo abrangente e específico dos principais textos da antiga tradição, bem como daqueles produzidos na Idade Média, que consolidaram o pensamento antifeminista vis-à-vis os textos, também medievais, que responderam, em forma de defesa da mulher, a esse pensamento e à sua realidade misógina.  Considerados em alinhamento cronológico, conforme se explicou anteriormente, poderá tomar o feitio de uma antologia, na qual notas de rodapé, explicativas ou de procedimento intertextual, poderão dar a essa antologia uma característica de edição crítica. 
Pelo que se conhece no País, em termos de publicações de textos medievais traduzidos para a língua portuguesa, esse trabalho tem as suficientes características e condições de inediticidade, vindo a cumprir uma enorme carência em termos de estudos de formato de coletânia de textos produzidos sobre a mulher no período medieval. Tal estudo interessará a várias disciplinas (literatura, história, antropologia, filosofia, religião, política) e linhas de pesquisa (teorias de gênero, estudos feministas, análise do discurso, estudos culturais).
Ainda como resultado da pesquisa realizada, alguns produtos poderão ser obtidos em termos de publicação de artigos ou mesmo de um livro, em forma de antologia crítica, com notas e comentários, precedida de uma substancial introdução teórica sobre o conteúdo tratado.
A pesquisa, ora apresentada em forma de projeto, não apresenta, praticamente, riscos e dificuldades relativamente à sua execução, principalmente no que se refere à parte mais trabalhosa, qual seja, a coleta dos textos que constituem o corpus do trabalho. Isso porque, o autor do projeto de pesquisa, por ter residido nos Estados Unidos por quase duas décadas, conseguiu, para a sua biblioteca particular, cópias de tradução para o inglês de, praticamente, todos os textos que tem em mente arrolar no projeto.  Muitas dessas cópias são de textos na língua original do autor (latim, antigo inglês ou francês). Entretanto, todos eles constam de cópias traduzidas para o inglês, obtidas junto às bibliotecas universitárias daquele País. Resta, também, verificar, em editoras brasileiras e portuguesas, quais são os textos que já se encontram traduzidos e editados em português, a fim de agilizar a coletânia no expediente da sua tradução. Caso o projeto se materialize em direção à criação dessa antologia, os expedientes legais de tradução e de publicação de textos traduzidos deverão ser tomados, com as costumeiras “dificuldades” que tais casos trazem.
A execução da pesquisa estará programada, preliminarmente, para o período de 01 de fevereiro de 2008 a 01 de fevereiro de 2010.